terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Aquele momento #2


É engraçado ouvir o meu Pai descrever as suas viagens de comboio, ali por volta dos anos 60, nos tempos em que cumpria o serviço militar. Hoje, devido ao acidente ocorrido na estação de Alfarelos, lá veio o mote para recordar, novamente, a vida daquela estação. Começa por entoar aquele "Alfareeeeeelos", extinto denunciador da chegada à estação. Depois, recorda os vendedores ambulantes: regueifa, rebuçados e água fresca. Convém recordar que naqueles tempos não havia a bordo as comodidades de hoje em dia e quem ia de viagem tinha de se precaver... Imagino que, naqueles minutos em que o comboio estacava naquela estação, fosse uma cacofonia de pregões. Era o tempo das estações vivas, apressadas, agitadas por fora e por dentro. Hoje, mesmo naquelas que continuam a receber a visita dos comboios, o ambiente é moribundo. Nunca mais me esqueço dos momentos de desconforto que passei na estação de Lousado. Parecia que tinha sido largada num qualquer lugarejo perdido no interior desertificado. Não se via vivalma, nem eram audíveis quaisquer sinais de civilização. E pergunto-me: porquê? Porque se fecham as estações a sete chaves e se retiram os colaboradores dali? Fica-se sem informações, sem estruturas de apoio, sem segurança (sim, sobretudo sem segurança). Não podiam ser estes espaços também utilizados como pontos de divulgação do país, em termos de gastronomia, de artesanato e de ofertas turísticas a nível local e nacional? Ao invés, priva-se os passageiros de espaços que são seus e, pior, fecham-se linhas de forma cega. Estou em crer que alguém anda a ver mal as potencialidades deste meio de transporte e a desvalorizar a sua importância para o desenvolvimento e sustentabilidade das regiões. Mas isto talvez seja eu que, neste assunto, não consigo separar o coração da razão.

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