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terça-feira, 6 de outubro de 2015
quarta-feira, 24 de junho de 2015
24 de Junho de 1128 - Dia Um de Portugal
Créditos fotográficos: Rui Araújo
Aqui nasceu pequeno, mas pujante,
Um reino d' homens feitos de coragem
E que ao crescer, nobreza por linhagem,
Ousou, foi aguerrido, triunfante.
Um reino d' homens feitos de coragem
E que ao crescer, nobreza por linhagem,
Ousou, foi aguerrido, triunfante.
A Guimarães se vem, como em romagem,
Lembrar, de tempos idos, um Infante,
Que nunca, a qualquer rei, por humilhante,
Cedeu, nem mesmo à mãe, em vassalagem.
Daqui saiu, num tempo já distante,
Nos rumos do poente e do levante,
Qual génio perseguindo uma miragem.
E o nome - Afonso Henriques - fez gigante!
Com feitos duma audácia deslumbrante,
Tornando gigantesca a sua imagem.
(Vítor Cintra, in "Murmúrios")
Lembrar, de tempos idos, um Infante,
Que nunca, a qualquer rei, por humilhante,
Cedeu, nem mesmo à mãe, em vassalagem.
Daqui saiu, num tempo já distante,
Nos rumos do poente e do levante,
Qual génio perseguindo uma miragem.
E o nome - Afonso Henriques - fez gigante!
Com feitos duma audácia deslumbrante,
Tornando gigantesca a sua imagem.
(Vítor Cintra, in "Murmúrios")
sábado, 9 de maio de 2015
Poemas e pensamentos #20
Que Deus te dê para cada tempestade, um arco-íris. Para cada lágrima, um sorriso. Para cada cuidado, uma promessa e uma benção para cada provação. Que para cada problema, a vida te traga alguém fiel com quem dividí-lo. Para cada olhar, uma doce canção e uma resposta para cada oração.
(Benção irlandesa)
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Poemas e pensamentos #19
Créditos fotográficos: José Caldeira
De súbito sabemos que é já tarde.
Quando a luz se faz outra, quando os ramos da árvore que somos soltam folhas e o sangue que tínhamos não arde como ardia, sabemos que viemos e que vamos. Que não será aqui a nossa festa.
De súbito chegamos a saber que andávamos sozinhos. De súbito vemos sem sombra alguma que não existe aquilo em que nos apoiávamos. A solidão deixou de ser um nome apenas. Tocamo-la, empurra-nos e agride-nos. Dói. Dói tanto! E parece-nos que há um mundo inteiro a gritar de dor, e que à nossa volta quase todos sofrem e são sós.
Temos de ter, necessariamente, uma alma. Se não, onde se alojaria este frio que não está no corpo?
Rimos e sabemos que não é verdade. Falamos e sabemos que não somos nós quem fala. Já não acreditamos naquilo que todos dizem. Os jornais caem-nos das mãos. Sabemos que aquilo que todos fazem conduz ao vazio que todos têm.
Poderíamos continuar adormecidos, distraídos, entretidos. Como os outros. Mas naquele momento vemos com clareza que tudo terá de ser diferente. Que teremos de fazer qualquer coisa semelhante a levantarmo-nos de um charco. Qualquer coisa como empreender uma viagem até ao castelo distante onde temos uma herança de nobreza a receber.
O tempo que nos resta é de aventura. E temos de andar depressa. Não sabemos se esse tempo que ainda temos é bastante.
E de súbito descobrimos que temos de escolher aquilo que antes havíamos desprezado. Há uma imensa fome de verdade a gritar sem ruído, uma vontade grande de não mais ter medo, o reconhecimento de que é preciso baixar a fronte e pedir ajuda. E perguntar o caminho.
Ficamos a saber que pouco se aproveita de tudo o que fizemos, de tudo o que nos deram, de tudo o que conseguimos. E há um poema, que devíamos ter dito e não dissemos, a morder a recordação dos nossos gestos. As mãos, vazias, tristemente caídas ao longo do corpo. Mãos talvez sujas. Sujas talvez de dores alheias.
E o fundo de nós vomita para diante do nosso olhar aquelas coisas que fizemos e tínhamos tentado esquecer. São, algumas delas, figuras monstruosas, muito negras, que se agitam numa dança animalesca. Não as queremos, mas estão cá dentro. São obra nossa.
Detestarmo-nos a nós mesmos é bastante mais fácil do que parece, mas sabemos que também isso é um ponto da viagem e que não nos podemos deter aí.
Agora o tempo que nos resta deve ser povoado de espingardas. Lutar contra nós mesmos era o que devíamos ter aprendido desde o início. Todo o tempo deve ser agora de coragem. De combate. Os nossos direitos, o conforto e a segurança? Deixem-nos rir… Já não caímos nisso! Doravante o tempo é de buscar deveres dos bons. De complicar a vida. De dar até que comece a doer-nos.
E, depois, continuar até que doa mais. Até que doa tudo. Não queremos perder nem mais uma gota de alegria, nem mais um fio de sol na alma, nem mais um instante do tempo que nos resta.
[Paulo Geraldo, "O tempo que nos resta"]
domingo, 6 de julho de 2014
Poemas e pensamentos #18
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Poemas e pensamentos #17
Há homens que são como as velas; sacrificam-se, queimando-se, para dar luz aos outros.
(Padre António Vieira)
(Padre António Vieira)
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Feliz Ano Novo!
"Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA..."
(Mário Quintana, in "Nova Antologia Poética").
Que 2014 seja para vós um ano de boa memória e muito abençoado. E que nunca, mas nunca, percais a esperança e a fé!
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Poemas e pensamentos #16
Não deves recusar o esforço, porque ele é um caminho.
Num lugar que terás de descobrir – que fica sempre alto e longe –
existe para ti uma lagoa meio escavada na rocha, com relva muito verde
em parte das margens e cantos alegres de pássaros calmos.
Encontram-se lá os que amas, fortes e generosos. Sorridentes.
Há sol e também a sombra de altas árvores. Por cima, apenas o céu, à distância de um último salto.
Não é um destino inevitável, mas um lugar onde és esperado e que podes,
ou não, alcançar, conforme a medida do teu desejo. Só quando lá
chegares terás alcançado toda a tua envergadura. Só lá te encontrarás
contigo mesmo.
Existes para chegar a esse lago. Os teus olhos são
capazes de pousar nas suas águas limpas, que reflectem já o céu que lhes
há por cima.
Não se pode querer mal aos caminhos que conduzem a
lugares assim, embora sejam escarpados e se torne impossível evitar
ferimentos e cansaços quando se segue por eles.
Se o teu desejo de
chegar for grande, nenhum esforço te parecerá demasiado penoso. E,
embora vás a caminho, terás sempre contigo qualquer coisa que é já de
ter chegado. Talvez uma certa forma de olhar, resultante daquela luz que
se acende por dentro quando nos pomos a caminho dispostos a tudo o que
aparecer.
E nem haverá problema se a morte te encontrar assim, ainda
no gesto de subir: já tens em ti o teu lago, na imagem dele que te fez
partir.
Não deves recusar a dor, porque ela te constrói, te marca os limites e te faz crescer por dentro dos teus muros.
Sem ela, não passarias de um projecto do homem que hás-de ser. Ela
edifica-te os músculos, a cabeça e o coração, e não existe outra maneira
de chegares a ser aquilo que deves vir a ser.
Se não sofresses não haveria ninguém dentro de ti.
No cumprimento sério dos teus deveres, encontrarás a dor na forma de esforço e de cansaço.
Mas pode muito bem ser que, tarde ou cedo, ela te procure sem disfarces
e te faça chorar ou gemer. É frequente que ela se apresente assim, numa
nudez que parece cruel e faz lembrar facas ou agulhas.
Nem por isso te deves assustar ou desistir.
Quando te parecer que tudo está perdido, ri-te, se puderes. É que te
estão a oferecer um degrau que te deixará incomparavelmente mais acima
no caminho. Deves ver nisso o sinal de que – por qualquer razão – é
tempo de andares depressa.
Sobretudo, não te queixes. Há assim metamorfoses que parecem aniquilar, mas não passam de formas de fazer surgir a borboleta.
Não te queixes, porque receberás umas asas e cores novas.
O teu lago – de onde de tão perto se pode olhar o céu – tem um preço que tu saberás dar e não é tão grande assim.
[Paulo Geraldo, "O lago".]
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Poemas e pensamentos #15
Se não puderes ser um pinheiro no topo da colina
Sê um arbusto no vale – mas o melhor arbusto na encosta do monte.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
e dá alegria a um caminho.
Se não puderes ser almíscar, sê então apenas uma tília,
Mas a tília mais viva do lago.
Não podemos ser todos capitães, temos de ser tripulação.
Há alguma coisa para todos nós aqui.
Há grandes obras e outras menores a realizar,
E é a próxima tarefa que devemos empreender.
Se não puderes ser uma estrada, sê apenas uma senda.
Se não puderes ser o sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso.
Sê o melhor de o que quer que sejas!
Sê um arbusto no vale – mas o melhor arbusto na encosta do monte.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
e dá alegria a um caminho.
Se não puderes ser almíscar, sê então apenas uma tília,
Mas a tília mais viva do lago.
Não podemos ser todos capitães, temos de ser tripulação.
Há alguma coisa para todos nós aqui.
Há grandes obras e outras menores a realizar,
E é a próxima tarefa que devemos empreender.
Se não puderes ser uma estrada, sê apenas uma senda.
Se não puderes ser o sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso.
Sê o melhor de o que quer que sejas!
(Douglas Maloch)
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Poemas e pensamentos #14
Vivemos
no mundo do movimento e do ruído. Hoje é impossível parar. Apesar
disso, e talvez por isso mesmo, devemos procurar o silêncio. Um silêncio
que seja mais interior do que exterior; um silêncio que imponha ordem a
todos os nossos afectos e sentimentos, e até aos nossos problemas e
preocupações. Silêncio, perante atitudes que podem ferir-nos, perante
palavras insensatas, perante esquecimentos
que não esperávamos. Nestas ocasiões, o cântico do silêncio, em vez de
fazer subir a estridência dos gritos, ou a amaragura da discussão, será
mais proveitoso. Esse cântico do silêncio só pode ser entoado por homens
que sabem dominar-se a si próprios e às circunstâncias em que têm de
actuar.
[In "Os cinco minutos de Deus - Breves reflexões para cada dia do ano".]
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Poemas e pensamentos #13
Créditos fotográficos: Virgínia Ferreira
"Os dias vão passando; uma após outra, vão-se arrancando as folhas do calendário e cada dia há menos folhas por arrancar. Os dias são semelhantes a esse punhado de água que se nos escorre por entre as mãos, por mais que a queiramos reter. A vida vai passando, nós vamos passando, mas há alguma coisa que fica. A vida tem uma projecção que permanece; o bem e o mal que fizermos na vida deixa uma marca, tanto em nós como nos outros. Não podemos dizer, com verdade, que o que fazemos na vida seja uma coisa sem importância; nada é pequeno e insignificante se transcende o tempo e tem repercussão na eternidade."
[in "Os cinco minutos de Deus - Breves reflexões para cada dia do ano".]
sábado, 14 de setembro de 2013
domingo, 8 de setembro de 2013
Poemas e pensamentos #11
"Se me disseres que me amas, acreditarei.
Mas se escreveres que me amas,
acreditarei ainda mais.
Se me falares da tua saudade, entenderei,
mas se escreveres sobre ela,
eu a sentirei junto comigo.
Se a tristeza vier a te consumir e me contares,
eu saberei, mas se a descreveres no papel,
o seu peso será menor.
... e assim são as palavras escritas:
possuem um magnetismo especial, libertam,
acalentam, invocam emoções.
Elas possuem a capacidade
de em poucos minutos cruzar mares,
saltar montanhas, atravessar desertos intocáveis.
Muitas vezes, infelizmente, perde-se o Autor,
mas a mensagem sobrevive ao tempo,
atravessando séculos e gerações.
Elas marcam um momento que será
eternamente revivido por todos aqueles que a lerem.
Viva o amor com palavras faladas e escritas,
mate saudades, peça perdão,
aproxime-se, recupere o tempo perdido.
Insinue-se, alegre alguém,
ofereça um simples "bom dia",
faça um carinho especial.
Use a palavra a todo o instante, de todas as maneiras.
Sua força é imensurável.
Lembre-se sempre do poder das palavras.
Quem escreve constrói um castelo,
e quem lê passa a habitá-lo."
Mas se escreveres que me amas,
acreditarei ainda mais.
Se me falares da tua saudade, entenderei,
mas se escreveres sobre ela,
eu a sentirei junto comigo.
Se a tristeza vier a te consumir e me contares,
eu saberei, mas se a descreveres no papel,
o seu peso será menor.
... e assim são as palavras escritas:
possuem um magnetismo especial, libertam,
acalentam, invocam emoções.
Elas possuem a capacidade
de em poucos minutos cruzar mares,
saltar montanhas, atravessar desertos intocáveis.
Muitas vezes, infelizmente, perde-se o Autor,
mas a mensagem sobrevive ao tempo,
atravessando séculos e gerações.
Elas marcam um momento que será
eternamente revivido por todos aqueles que a lerem.
Viva o amor com palavras faladas e escritas,
mate saudades, peça perdão,
aproxime-se, recupere o tempo perdido.
Insinue-se, alegre alguém,
ofereça um simples "bom dia",
faça um carinho especial.
Use a palavra a todo o instante, de todas as maneiras.
Sua força é imensurável.
Lembre-se sempre do poder das palavras.
Quem escreve constrói um castelo,
e quem lê passa a habitá-lo."
Autor Desconhecido
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Poemas e pensamentos #10
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
(Fernando Pessoa)
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
(Fernando Pessoa)
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Poemas e pensamentos #9
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa
(125º aniversário)
terça-feira, 28 de maio de 2013
Poemas e pensamentos #8
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Fernando Pessoa
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Fernando Pessoa
segunda-feira, 6 de maio de 2013
terça-feira, 30 de abril de 2013
Poemas e pensamentos #6
"E deixa o melhor que tens para o teu amigo. Se ele tiver de conhecer a tua maré baixa, deixa-o conhecer também a tua maré cheia. Pois o que é o teu amigo para o procurares com horas por matar? Procura-o também com horas por viver. Pois compele-lhe a ele satisfazer a tua necessidade, mas não o teu vazio. E que haja gargalhadas na doçura da amizade e partilha de prazeres. Pois que no orvalho das pequenas coisas o coração descobre a sua manhã e refresca-se."
(Kahlil Gibran)
terça-feira, 12 de março de 2013
Poemas e pensamentos #5
Brincas todos os dias com a luz do Universo.
Subtil visitadora, chegas na flor e na água.
És mais do que a pequena cabeça branca que aperto
como um cacho entre as mãos todos os dias.
Com ninguém te pareces desde que eu te amo.
Deixa-me estender-te entre grinaldas amarelas.
Quem escreve o teu nome com letras de fumo
entre as estrelas do sul?
Ah, deixa-me lembrar como eras então,
quando ainda não existias.
Subitamente o vento uiva e bate à minha janela fechada.
O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios.
Aqui vêm soprar todos os ventos, todos.
Aqui despe-se a chuva.
Passam fugindo os pássaros.
O vento. O vento.
Eu só posso lutar contra a força dos homens.
O temporal amontoa folhas escuras
e solta todos os barcos que esta noite amarraram ao céu.
Tu estás aqui. Ah tu não foges.
Tu responder-me-ás até ao último grito.
Enrola-te a meu lado como se tivesses medo.
Porém mais que uma vez correu uma sombra estranha
pelos teus olhos.
Agora, agora também pequena, trazes-me madressilva,
e tens até os seios perfumados.
Enquanto o vento triste galopa matando borboletas
eu amo-te, e a minha alegria morde a tua boca de ameixa.
Quanto te haverá doído acostumares-te a mim,
à minha alma selvagem e só,
ao meu nome que todos escorraçam.
Vimos arder tantas vezes a estrela d'alva beijando-nos os olhos
e sobre as nossas cabeças destorcem-se os crepúsculos
em leques rodopiantes.
As minhas palavras choveram sobre ti acariciando-te.
Amei desde há que tempo o teu corpo de nácar moreno.
Creio-te mesmo dona do Universo.
Vou trazer-te das montanhas flores alegres, "copihues",
avelãs escuras, e cestos silvestres de beijos.
Quero fazer contigo
o que a Primavera faz com as cerejeiras.
Pablo Neruda in "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada"
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Poemas e Pensamentos #4
Não penses. Que raio de mania essa de estares sempre a querer pensar. Pensar é trocar uma flor por um silogismo, um vivo por um morto. Pensar é não ver. Olha apenas, vê. Está um dia enorme de sol. Talvez que de noite, acabou-se, como diz o filósofo da ave de Minerva. Mas não agora. Há alegria bastante para se não pensar, que é coisa sempre triste. Olha, escuta. Nas passagens de nível, havia um aviso de «pare, escute, olhe» com vistas ao atropelo dos comboios. É o aviso que devia haver nestes dias magníficos de sol. Olha a luz. Escuta a alegria dos pássaros. Não penses, que é sacrilégio.
Vergílio Ferreira, in "Conta-corrente - nova série - 2"
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