
Não havia vento, não havia o mínimo
som. Nem sequer uma ave quebrava o impávido azul celeste. Nada se
agitava no mais pequeno sinal de vida. Mas ele, ainda que com os
pensamentos toldados pelo desespero e pela exaustão, não pode deixar de
reflectir que a existência de vida naquele lugar significaria, para si,
morte iminente. Um perigo do qual não sabia se podia (ou queria)
escapar.
Caminhava sem sentido, vergado à inclemência do deserto.
Horas antes despira a camisa que levava por cima da t-shirt e com ela
fizera uma espécie de turbante. O sol devorava-lhe a pele sem piedade.
De tal forma que sentia que a qualquer momento entraria em combustão,
qual fósforo prestes a entrar em contacto com a superfície granulosa que
o incendiaria. Há muito que percebera que estava perdido. Há horas que
nada mais via do que o alaranjado da areia estender-se infinitamente até
alcançar o céu, numa monotonia irritantemente irritante e assustadora.
A
custo, principiou a escalada de mais uma pequena montanha de areia.
Olhou os seus braços vermelhos, quase incandescentes. Gostas de suor
rebolaram-lhe testa abaixo. Água. O que não daria agora por um mero copo
de água, por uma sombra fresca. Por um sítio onde pudesse descansar.
Intentou humedecer os lábios gretados com a língua, infrutiferamente. A
canícula há muito que lhe revolvia as entranhas. Deixou-se cair sobre a
areia e olhou para a distância que tinha percorrido. Uma enorme mancha
laranja revolta em ondas fantasmagóricas de calor que dela pareciam
despontar.
Forçou-se a descer o monte movediço de finos grãos. Sem
saber bem porquê, mas sem discernimento para encontrar um motivo.
Reparou que lá ao fundo a paisagem mudava. Não era, contudo, a ideia
concebida que tinha de um oásis. Ainda que distante, conseguia perceber
que aquele pequeno ponto esverdeado estava, também, a morrer. O
esqueleto ressequido da árvore parecia pronto a abraçá-lo no seu
destino. Encostou-se a ele e escorregou pelo tronco abaixo, vencido. Já
não acreditava que o viessem salvar. Martirizava-se pelo seu acto
irreflectido. De olhos fechados, relembrava o começo daquela viagem. As
férias exóticas que sempre sonhara, a pausa merecida na absorvente
carreira de informático, o voo, as dançarinas ondeantes e sensuais, as
ruas caóticas, a viagem ao deserto. Se pudesse voltar atrás… Afastara-se
ligeiramente do grupo, depois um pouco mais. Convencera-se que bastava
voltar para trás em linha recta e nada lhe aconteceria. E, quando se
apercebeu, o deserto tinha-o engolido na sua imensidão.
Um ponto
negro agitou-se à sua frente, sulcando a areia para desaparecer. As
máquinas eram bem mais espertas do que os homens, pensou num misto de
lucidez e delírio. Se algo corresse mal, limitavam-se a informar que o
sistema operativo tinha encontrado um erro e que o programa seria
encerrado. Assim, sem apelo nem agravo. Na vida, cada acto suportava a
sua consequência. Não dava para encerrar o momento. Ele bem gostava que
isso fosse possível agora. Interromper, simplesmente, aquele pesadelo
vivo e enviar o relatório de erros. Mas não havia nada, nem ninguém,
disposto a resolvê-lo.
(Pequeno conto de autoria própria.)