À minha Avó
Pensando bem, é a ti que devo este eu que hoje sou. Este despegar de tudo o
que é moda, de tudo o que é "in" e que todos anseiam possuir. Este
querer ser exímia nas pequenas coisas que serão sempre as melhores (e
sempre trarão alegria a este coração). Esta maneira de ser que me
desloca e afasta dos outros, que faz com que me rotulem de "alguém que
não parece deste tempo". És, sem
margem para dúvidas, o alicerce mais forte da minha personalidade e
orgulho-me disso. Foste tu quem me ensinou as lendas e minudências desta
cidade, quem me mostrou a beleza dos campos, quem me guiou por muitos
dos sítios que hoje conheço e proporcionou algumas aventuras que recordo com alegre nostalgia. Foste tu quem me acicatou a curiosidade, quem me incutiu o espírito contemplativo e quem me transmitiu valores com breves e
simples histórias. Como eu gostaria que cada criança deste mundo pudesse
ter uma Avó como tu, meiga, paciente, compreensiva. Afortunada de um
espírito tão grande que impregnava de carinho e bondade quem tinha a
sorte de cruzar o teu caminho. Sem instrução escolar mas plenamente
instruída nas coisas do alto. Dotada de uma sensibilidade apurada, capaz
de chamar a atenção de uma pequena menina para uma singela flor do
monte sufocada pela vegetação, para as cores vivas dos amores-perfeitos
que sempre despontam nos jardins da cidade quando deles é época, para a
invulgaridade e exotismo das hidrângeas. Todas as flores têm o teu nome e a tua essência. Tu, que foste uma das flores mais belas do meu jardim.

~♦~ Solenidade litúrgica de Santa Ana e São Joaquim / Dia dos Avós ~♦~